
30 de setembro de 2026
Nanotecnologia desenvolvida na Unifal combate superbactérias que causam infecções hospitalares
Projeto de cooperação internacional com universidade da Noruega, gerido pela Fundep, impulsiona tecnologia brasileira para combater bactérias resistentes
Pesquisadores da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) desenvolveram uma estratégia capaz de combater a Pseudomonas aeruginosa, uma superbactéria responsável por infecções hospitalares graves e de difícil tratamento. Criada em parceria com a Universidade de Tromsø, conhecida como Universidade do Ártico da Noruega, a técnica utiliza vírus encapsulados para infectar e destruir bactérias, com resultados promissores nos testes iniciais.
O estudo foi desenvolvido como parte do doutorado de Gustavo Aparecido da Cunha, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF) da Unifal, sob orientação dos professores Luiz Felipe Leomil Coelho, do Instituto de Ciências Biomédicas e pró-reitor de pesquisa da Universidade, e Gabriel Magno de Freitas Almeida, da Universidade do Ártico da Noruega.
O grupo desenvolveu um método inovador para encapsular os bacteriófagos em nanopartículas de albumina bovina (BSA), ampliando o tempo que permanecem ativos no organismo e sua capacidade de ação no organismo. Os resultados foram promissores tanto nos ensaios laboratoriais quanto nos experimentos com animais, que apresentaram redução expressiva da carga bacteriana nos pulmões, de inflamação e danos nos tecidos interno.
A bactéria Pseudomonas aeruginosa causa infecções respiratórias e cutâneas severas em pacientes vulneráveis em quadros de longa internação, como vítimas de grandes queimaduras, pacientes intubados, com fibrose cística e com sistema imunológico enfraquecido.
A resistência das bactérias aos antibióticos tradicionais é apontada pela Organização Mundial da Saúde como um dos maiores desafios globais de saúde pública do século XXI. Estima-se que, até o ano de 2050, as infecções por bactérias multirresistentes, conhecidas popularmente como superbactérias, causem mais óbitos anuais do que o câncer.

Nanopartículas em interação com a bactéria Pseudomonas aeruginosa. As nanopartículas contendo o fago em processo de degradação e liberação dos bacteriófagos (estruturas menores e mais esbranquiçadas). (Foto: Arquivo/Grupo de pesquisa)
Financiamento em pesquisa para garantir a autonomia científica nacional
A pesquisa faz parte do projeto “Avanço da pesquisa e pós-graduação na Unifal através da criação de redes de colaboração internacionais”, financiado pela Fapemig e gerido pela Fundep. O apoio também tornou possível a realização do I Congresso de Vírus de Microorganismos no Brasil e o desenvolvimento de um curso prático sobre manipulação de bacteriófagos na universidade mineira, disseminando técnicas inovadoras de diagnóstico e tratamento biológico.
Para o professor Luiz Felipe Coelho, a consolidação dessas frentes de pesquisa garante ao Brasil um papel de destaque na corrida biotecnológica global. "A abordagem também abre caminho para a criação de terapias nacionais baseadas em nanotecnologia, o que fortalece a inovação científica e tecnológica no país e reduz a dependência de insumos importados na área biomédica", explica do pesquisador.
Mas o avanço de longo prazo depende de financiamentos consistentes para a estruturação de equipes de pesquisa fixas e para o desenvolvimento de um “banco nacional de bacteriófagos caracterizados geneticamente”, explica o pesquisador. Como cada vírus atua de forma específica contra linhagens de bactérias determinadas, manter um "banco biológico de precisão" permitirá identificar rapidamente o vírus exato para neutralizar cada perfil de infecção hospitalar.
“Se continuar havendo financiamento, acredito que em 10 anos conseguiríamos montar um banco de bacteriófagos caracterizados aqui na universidade, garantindo uma ampla possibilidade de tratamentos não só para Alfenas, mas para todo o país.", projeta o pesquisador.
Resultados promissores e os desafios de regulação
Apesar do sucesso pré-clínico dos resultados e do potencial do tratamento para casos de pneumonias severas que não respondem aos antibióticos tradicionais, o avanço da pesquisa esbarra na ausência de regulamentação.
Atualmente, o Brasil e a maior parte das agências reguladoras ocidentais ainda não dispõem de normativas de saúde pública específicas para o uso terapêutico de bacteriófagos. A tecnologia já é consolidada há décadas em países como Rússia e Geórgia e começa a ser regulamentada na Bélgica e Portugal.
Enquanto os órgãos competentes debatem a regulamentação no Brasil, os cientistas da Unifal mantêm os estudos ativos e avançam para o desenvolvimento de ferramentas que possam eliminar também as bactérias que crescem na forma de biofilme em superfícies de dispositivos médicos (como cateteres e próteses), muito mais difíceis de erradicar.
“O nosso maior desafio agora é difundir a tecnologia. É por meio da pesquisa que conseguimos transferir tecnologia para a sociedade, como novas alternativas terapêuticas, que serão fundamental frente à crise de resistência aos antimicrobianos", conclui o professor Luiz Felipe Coelho.

