
24 de setembro de 2026
Fundep apresenta proposta de programa de investimentos em startups de universidades e centros de pesquisa
Apresentado no 9º Congresso Nacional do Confies, programa institui mecanismo compartilhado de investimento em empresas de base científico-tecnológica e negócios de impacto originados nas ICTs
A proposta de criação de um Programa Nacional de Investimento em Startups de Universidades e Centros de Pesquisa foi apresentada pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) durante o início dos trabalhos do 9º Congresso do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), em Brasília, nesta quarta-feira (23).
Estruturada a partir da experiência da Fundep Participações S/A (Fundepar), gestora de investimentos da Fundação, a iniciativa pretende reunir fundações de apoio de diferentes regiões do País em um mecanismo capaz de financiar empresas inovadoras originadas nas Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) nos estágios iniciais de desenvolvimento.
A proposta foi apresentada pelo presidente da Fundep, professor Jaime Arturo Ramírez, e pelo diretor-executivo da Fundepar, Carlos Lopes, como um convite à construção coletiva. A ideia é colocar a estrutura e a experiência acumuladas pela Fundepar à disposição de outras fundações, evitando que cada instituição precise criar individualmente uma gestora, formar equipe especializada e percorrer todos os processos jurídicos, regulatórios e operacionais necessários para realizar investimentos dessa natureza.
“O que estamos propondo é colocar uma experiência construída ao longo de 13 anos a serviço de uma ação coletiva. Em vez de cada fundação precisar criar, sozinha, toda uma estrutura para investir em startups, podemos compartilhar uma plataforma especializada, preservando a autonomia de cada instituição e sua relação com a ICT apoiada”, afirmou Jaime Ramírez.
Resposta a um desafio do sistema de C&T
A proposta parte de um desafio identificado no sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação: embora universidades e centros de pesquisa tenham ampliado a presença da inovação, do empreendedorismo e da transferência de tecnologia em suas estratégias institucionais, parte importante do conhecimento produzido ainda encontra dificuldades para avançar até sua aplicação na sociedade.
Esse obstáculo se torna particularmente evidente nas startups acadêmicas. Riscos tecnológicos, necessidade de validação científica e regulatória, ciclos longos de maturação e equipes altamente qualificadas tecnicamente, mas ainda em processo de desenvolvimento de competências empresariais, dificultam o acesso dessas empresas ao capital justamente em suas fases mais iniciais.
“As universidades brasileiras produzem ciência de qualidade e têm incorporado inovação e empreendedorismo às suas estratégias. O desafio é criar condições para que parte desse conhecimento consiga avançar até se transformar em tecnologia, produto, serviço ou negócio. É justamente nesse percurso, sobretudo nas etapas iniciais, que existe uma lacuna de financiamento que as fundações de apoio podem ajudar a enfrentar”, destacou Jaime.
Investir onde o risco ainda é maior
O programa terá como foco startups de base científico-tecnológica e negócios de impacto socioambiental originados em universidades e ICTs apoiadas. A previsão é atuar nos estágios pré-seed e seed, com atenção a empresas alinhadas a áreas consideradas estratégicas para o País, como saúde, bioeconomia, transformação digital, transição energética e defesa, além de iniciativas relacionadas à soberania tecnológica e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Nesses estágios as empresas ainda precisam demonstrar a viabilidade da tecnologia, realizar validações, testar seus modelos de negócio e construir condições para chegar ao mercado. Por apresentarem riscos mais elevados e ciclos de desenvolvimento mais longos, muitas delas têm dificuldade para captar investimentos privados.
Durante a apresentação, Carlos Lopes ressaltou que a intenção é atuar justamente nesse espaço. “A proposta é investir onde o risco ainda é alto e o capital privado tende a chegar menos. São empresas que precisam validar tecnologia, propriedade intelectual, modelo de negócio e mercado. O investimento precisa acompanhar essa trajetória por etapas, liberando novos recursos à medida que a empresa reduz riscos e alcança novos marcos de desenvolvimento”, explicou.
A lógica também orienta a maneira como cada investimento será planejado. De acordo com Lopes, não se trata de disponibilizar de uma só vez todo o recurso estimado para uma empresa, mas de construir um plano de desenvolvimento e realizar os aportes conforme o empreendimento cumpra etapas e reduza incertezas.
Uma estrutura compartilhada, com decisão local
A arquitetura apresentada no Congresso procura responder a uma dificuldade observada pela Fundepar ao longo dos últimos anos. Embora outras fundações de apoio tenham demonstrado interesse em desenvolver programas de investimento semelhantes, a implantação de estruturas próprias envolve barreiras como a criação de uma empresa especializada, fluxos institucionais de aprovação, obtenção de licenças, formação de equipes e necessidade de uma escala mínima de capital.
“Existe interesse das fundações em criar mecanismos de investimento, mas também existem barreiras muito concretas: estrutura jurídica, processos internos de aprovação, licenças, equipe especializada e uma escala mínima de capital. O desenho compartilhado procura justamente reduzir essas barreiras sem retirar das fundações o poder de decidir onde seus recursos serão investidos”, afirmou Carlos Lopes.
Para responder às diferentes capacidades financeiras e estratégias institucionais, o programa prevê modalidades compartilhadas e exclusivas. Cada vertical de investimento terá como referência o valor de R$ 10 milhões. Uma fundação poderá constituir sozinha uma vertical nesse montante ou integrar um grupo com outras instituições. Entre as configurações apresentadas estão, por exemplo, 20 fundações aportando R$ 500 mil cada, quatro com aportes de R$ 2,5 milhões ou duas com R$ 5 milhões.
“Apesar do compartilhamento da estrutura, os recursos correspondentes a cada fundação permanecem destinados às empresas originadas no ecossistema de sua própria ICT apoiada, conforme a política de investimento definida para aquela instituição”, destacou o presidente Jaime Ramírez.
A gestão especializada da Fundepar ficará responsável por atividades como prospecção e mapeamento de oportunidades, análise de viabilidade e due diligence, avaliação do modelo de negócio, estruturação societária, alocação dos recursos e acompanhamento das empresas investidas. Já as fundações manterão prerrogativas como a composição dos comitês de investimento, com participação das ICTs, e a aprovação ou veto de cada aporte.
“A gestão especializada realiza a prospecção, a análise técnica, a estruturação e o acompanhamento dos investimentos. Mas a decisão de investir continua sendo institucional. Cada fundação participa da governança, organiza seu comitê e mantém a palavra final sobre os aportes relacionados à sua instituição apoiada”, explicou Lopes.
Segurança jurídica, propriedade intelectual e participação das fundações entram no debate
A apresentação foi seguida por perguntas dos representantes das fundações de apoio, relacionadas à aplicação prática do programa. Diretor-presidente da Fundação de Apoio da Escola Superior de Agricultura (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), José Baldin Pinheiro, abordou a segurança jurídica da atuação das fundações, especialmente em sua relação com órgãos de controle. Em sua resposta, Jaime Ramírez recuperou a experiência de criação da Fundepar e destacou a importância da segregação patrimonial e da definição clara das responsabilidades institucionais entre fundação de apoio e gestora de investimentos.
“Uma preocupação central desde a criação da Fundepar foi separar claramente a atividade de investimento das demais atividades da Fundação. A segregação patrimonial e a estrutura específica para essa finalidade foram elementos importantes desse processo. Para um programa nacional, segurança jurídica, governança e delimitação clara de responsabilidades também são condições essenciais.”
O presidente da Fundep relatou ainda que, no caso mineiro, a Procuradoria das Fundações foi consultada sobre a estrutura adotada e destacou a relevância da segregação patrimonial para o modelo.
Modelo busca incluir fundações de diferentes portes
A possibilidade de participação das fundações de menor porte também apareceu entre as perguntas. Maíra Bittencourt, presidente da Fundação de Apoio da Universidade Federal de Sergipe (Fapese) questionou como uma instituição de pequeno porte, capaz de investir em apenas uma startup, pode dimensionar quanto deve ser investido em uma empresa que ainda se encontra em seus estágios iniciais.
Carlos Lopes explicou que a definição depende da análise técnica do empreendimento, dos riscos existentes e das etapas necessárias para o desenvolvimento do negócio, o que torna ainda mais evidente a necessidade de uma assessoria especializada.
“Não se define o investimento apenas perguntando quanto a empresa gostaria de receber. É preciso construir um plano, identificar quais riscos precisam ser superados e quais marcos a empresa deve alcançar. O capital é aportado por etapas. Quando novos resultados são atingidos e os riscos diminuem, abre-se a possibilidade de uma nova rodada de investimento.”
Experiência construída ao longo de 13 anos
O programa nacional toma como referência a trajetória da Fundepar, subsidiária integral da Fundep, criada especificamente para realizar investimentos em negócios inovadores. Em 13 anos de atuação, a gestora analisou mais de 3,5 mil startups, impactou mais de 5,5 mil empreendedores, realizou 60 investimentos e estruturou quatro veículos de investimento, com mais de R$ 100 milhões sob gestão.
A experiência inclui investimentos em negócios originados em diferentes universidades brasileiras, além de iniciativas de formação e desenvolvimento de empreendedores. O Fundo de Investimento Seed4Science e programas como o Arapy, Motirõ e Lemonade fazem parte da trajetória construída pela Fundepar.
Para a Fundep, essa experiência permite agora discutir uma mudança de escala: de um modelo desenvolvido a partir da UFMG para uma estrutura compartilhada entre fundações de apoio de todo o País.
“Se conseguirmos reunir a capilaridade das fundações de apoio, a capacidade científica das instituições que apoiamos e uma estrutura profissional de investimento, podemos construir um mecanismo com escala nacional. A proposta que apresentamos não está pronta simplesmente para ser entregue às fundações; ela é um convite para que essa construção seja feita coletivamente”, concluiu Jaime Ramírez.

