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Os desafios da importação na ciência e as soluções trazidas pela Fundep para o cenário de pandemia

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Ado Jorio manipula peça eletrônico-mecânica que controla o posicionamento na nanoantena. TV Brasil | Reprodução

Entre as cinco fundações nacionais e públicas que mais importam produtos de pesquisa, Fundep mira nova estrutura para diminuir os impactos das oscilações da economia brasileira e mundial

 

Quem vê os resultados de pesquisas científicas nem sempre tem a chance de saber como um cientista chegou a eles. Alguns podem salvar vidas, melhorar setores econômicos ou criar inovações que serão lembradas por anos a fio. Desde o processo de planejamento da pesquisa até a sua concretização são diversas fases e participantes que constroem, tijolo por tijolo, um resultado. E neste contexto, desde o início da pandemia de covid-19, em 2020, trabalhar com a importação de insumos e equipamentos se tornou uma tarefa desafiadora.

Há pressões de todos os lados. Real desvalorizado frente ao dólar nos últimos dois anos, plantas de produção fechadas e com demanda represada em diversos países e, consequentemente, um aumento da espera para conseguir itens básicos. A Fundep está entre as cinco fundações nacionais e públicas que mais importam produtos para a pesquisa no Brasil e trabalha com itens heterogêneos – do setor naval, mineração, saúde – em função da sua atuação em diversas áreas do conhecimento. Há mais de 15 anos na Fundação, o coordenador de importação e exportação, Guilherme Matos, diz que o cenário atual na pandemia é bastante complexo.  

Para tentar mitigar o alto custo do dólar, a tentativa tem sido reduzir o custo logístico fazendo aquisições mais consolidadas em blocos, e criar uma previsibilidade nos projetos. No entanto, situações como a escassez de voos em função da pandemia e a interrupção do canal de Suez, têm sido barreiras duras de serem transpostas. São mais de mil transações de importação feitas pela Fundep anualmente, 1/3 delas de fornecedores diferentes. “O analista precisa ser camaleão, entender um pouco como funciona cada área para negociar e inserir no plano de trabalho que temos. O valor do trabalho é esse. A intermediação é importante”, ressalta.   

A aposta para diminuir os impactos das oscilações da economia brasileira e mundial é criar uma nova estrutura de compras fora do país. Uma trading pensada no final de 2019 e que deve começar a operar no segundo semestre deste ano a um custo inicial de US$ 10 mil. “A ideia é ter uma trading fora do país, com apoio da Fundepar (agência de investimentos da Fundep), para conseguir garantir poder de compra nos projetos e previsibilidade do custo. Ainda que não seja uma compra para agora, eu poderia deixar o recurso previamente alocado para uma aquisição”, diz. A vantagem seria uma proteção de desvalorização do recurso e aumento da confiabilidade dos parceiros que vendem para a Fundep.

A importância de um processo bem feito de importação pode ser vista em projetos recentes nos quais a Fundep teve participação. A construção de um nanoscópio por professores da UFMG, capitaneados pelo físico Ado Jorio, só foi possível tendo a importação como um alicerce. Mais do que isso, ela é responsável por prover boa parte dos materiais utilizados no trabalho do pesquisador mineiro. “Se você retirar o pagamento de pessoal e pensar só em equipamentos e insumos, 90% do que eu trabalho é importado. Tudo o que faço tem ótica, fontes de luz, lasers, detectores, parte ótica de alta qualidade, espelhos, filtros, tudo é importado”, explica. Segundo ele a importação de um único produto para o Brasil pode levar de quatro a seis meses. “Se você estiver nos EUA, na Europa, no Japão, você pega o telefone e o produto chega no dia seguinte”, diz.   

Além da continuidade e desenvolvimento de pesquisas, a importação ajuda pesquisadores a garantir que o Brasil e Minas Gerais tenham equipamentos de boa qualidade que ajudam na atração de profissionais de ponta, dispostos a atuar no Estado. É o que conta o professor Gilberto Medeiros, do centro de Microscopia da UFMG, que atuou junto com Guilherme Matos e outros parceiros para conseguir trazer ao Brasil um microscópio doado pela Hewlett-Packard Company (HP). O equipamento, utilizado por cientistas do Brasil e do exterior, saiu de Palo Alto, no Vale do Silício e foi colocado em funcionamento em 2019.  

Medeiros compara a chegada de equipamentos de qualidade via importação a uma maratona de longa distância em que é necessário estar sempre à frente.  “Se você tem uma universidade com um parque de instrumentos bons, você vai conseguir atrair pesquisadores bons. Se não tem, às vezes a pessoa não quer começar do zero. Isso serve também para fazer boas contratações”, salienta. Para trazer o microscópio americano ao Brasil, foram necessários quase dois anos entre armazenamento na Califórnia, desembaraço aduaneiro e outros processos de registro.  

 

IMPORTAÇÃO PARA A FRONTEIRA DO CONHECIMENTO

No Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), a demanda por importação também é alta e complexa. Fernando Moreira, gerente do Escritório de Gestão de Projetos do Instituto, relata que em apenas um projeto foram importados seis equipamentos de grande porte para o desenvolvimento de pesquisas de ponta. Um deles é o acelerador de elétrons, que teve um custo avaliado em torno de R$ 2 milhões. “Esse equipamento não é vendido de prateleira, ou seja, precisa ser montado. Com a atuação da Fundep, conseguimos importá-lo da Coréia”, explica Fernando.

O equipamento é usado para desinfecção de efluentes industriais. “Por meio de um feixe de elétrons com alta energia, o equipamento desinfeta resíduos líquidos que poluem rios, por exemplo”, comenta. O acelerador de elétrons está sendo montado em uma carreta para percorrer todo o Brasil, desenvolvendo pesquisa e ensino e contribuindo com o tratamento de efluentes. “Tivemos que reforçar o chassi da carreta, porque o acelerador é muito pesado! Agora, teremos um equipamento único, itinerante e multiusuário, trazendo inúmeros benefícios em escala nacional. A participação da Fundep foi fundamental para atender todas as especificidades do projeto. Toda a negociação com o fornecedor foi feita pela Fundação, sempre com acompanhamento do Ipen”, finaliza Fernando.

 

Outros setores  

Segundo a Academia Brasileira de Ciências, em 40 anos, a partir de 1980, a produção de insumos farmacêuticos no Brasil caiu de 55% para 5% da necessidade de consumo. Com isso, o processo importação no setor se tornou imprescindível para a pesquisa. Na área de conservação e restauração o cenário é muito parecido.  

“A restauração necessita de pigmentos, vernizes, andaimes, solventes. São muitos equipamentos. Nós até tentamos fazer um equilíbrio entre a compra de material nacional e internacional, mas em todas as áreas, em restaurações de grande e pequeno porte, a importação é um processo necessário. E a Fundep nos dá um apoio logístico fundamental”, afirma Bethania Reis, ex-diretora do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais (Cecor) ligado à Escola de Belas Artes da UFMG.

Ela cita a restauração do Presépio do Pipiripau, obra tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como um dos casos no qual a chegada de insumos para pintura e recuperação foi essencial. A obra tem um palco de 45 cenas com 586 personagens e peças contando a história de Jesus Cristo desde o seu nascimento até a ressurreição.