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Diversidade em pauta: 2021 da Fundep é marcado pelo apoio à pluralidade na ciência

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Projeto Mulheres na Ciência, coordenado pela Fundep, participa da She’s Tech Conference, maior evento de mulheres na tecnologia do Brasil.

Alinhada ao movimento global de valorização da diversidade, Fundep promove ações e apoia projetos que incentivam a pluralidade na ciência

 

Pesquisas recentes mostram que a diversidade entre os membros de uma organização é benéfica para criação de soluções mais criativas e para obtenção de resultados. Quando o assunto é ciência, isso não é diferente. A contribuição de pessoas com diferentes identidades de gênero, pontos de vista, vivências, experiências e conhecimentos permite a construção de saberes únicos e, assim, surge a inovação. 

Tópico de extrema importância, nos últimos anos, a diversidade na ciência vem ganhando cada vez mais destaque. No entanto, quando consideramos que, apesar de 57% das vagas em cursos de graduação serem ocupadas por mulheres, apenas 36% das bolsas PQ, de produtividade em pesquisa, são de pesquisadoras – e que, desse número, apenas 3% são de pesquisadoras negras (Cnpq, 2018) – é possível perceber que ainda há uma disparidade e um longo caminho a ser percorrido pela igualdade e diversidade na ciência brasileira. 

 

A FUNDEP E O PROJETO MULHERES NA CIÊNCIA 

Essa carência de representatividade de mulheres nos níveis mais altos das carreiras na ciência é chamada de “efeito tesoura”. Hoje, a mulher não é minoria na base, mas é minoria no topo, por isso o debate é de extrema importância. A escolha por uma carreira acadêmica na área de CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação) é individual, mas influenciada por aspectos socioeconômicos, culturais e políticos. 

Historicamente, mulheres são excluídas do meio científico. Um dos exemplos mais famosos que comprova isso é o de Rosalind Franklin. A biofísica britânica, pioneira na pesquisa de biologia molecular, foi responsável por realizar achados, por meio da técnica de difração do raio-x, que mostravam a estrutura helicoidal do DNA, desvendando o formato dessa importante molécula. Seus estudos permitiram que James Dewey Watson e Francis Crick postulassem a hipótese sobre a estrutura do DNA, porém Rosalind não recebeu os créditos merecidos. Só muitos anos após sua morte, a pesquisadora teve o reconhecimento merecido. 

Buscando estimular a reflexão e o debate sobre diversidade e presença feminina na ciência, o projeto Mulheres na Ciência, coordenado pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) em parceria com o State Innovation Center – comunidade de corporações, startups, cientistas e criadores localizada em São Paulo, capital – nasce com a proposta de popularizar o acesso à pesquisa feita por mulheres no Brasil e desmitificar a relação mulher e ciência, proporcionando diálogo constante e troca de informações. 

“O projeto começou em março de 2021. Junto ao State, identificamos valores que eram comuns e preciosos para nós e chegamos na diversidade. Percebemos que, no ambiente acadêmico e de inovação, o lugar de fala era quase sempre ocupado por homens brancos e que faltava representatividade. A partir daí, criamos o Mulheres na Ciência, que começou como um evento”, conta Júlia Silva Fernandes, colaboradora Fundep e community manager do projeto Mulheres na Ciência. 

A iniciativa surtiu efeito e o projeto se estruturou, como Júlia relata: “Vimos que uma mulher inspira a outra. A partir do primeiro evento tivemos uma aceitação grande e pessoas pedindo por mais encontros. Percebemos que estávamos no caminho certo”. 

O projeto Mulheres na Ciência chegou à sua 5ª edição em dezembro, celebrando o último encontro do ano com o pesquisadoras negras de quatro estados brasileiros, trazendo suas experiências e lugares de fala. Ciência e Biotecnologia, Divulgação Científica, o projeto Brumadinho e a vivência de pesquisadoras LBT estão entre os temas já abordados pelo projeto, que conta com participação de cientistas de destaque em suas áreas. A partir da realização de encontros para o debate, as mulheres trazem o lugar de fala de quem é maioria nos bancos das universidades e concilia, muitas vezes, pesquisa, docência, família, projetos e cuidados pessoais. Os eventos são gratuitos e transmitidos no canal do YouTube do State. 

MOVIMENTO ALINHADO À UFMG 

A Fundep, atuando dessa forma, mostra seu alinhamento com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que, por meio de projetos, iniciativas, do seu corpo docente e discente, conduz ações para estimular a diversidade na ciência. A professora Viviane Alves, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/ UFMG) é uma expoente importante desse movimento. A docente faz parte da Liga da Ciência Preta Brasileira, é embaixadora do projeto Parent in Science e coordena o podcast MicroBios – apoiado pelo Instituto Serrapilheira. 

 

Viviane Alves é professora do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Além de importante papel na formação de discentes, a professora realiza ações em prol da diversidade e da pluralidade na pesquisa.

 

Quando falamos em diversidade racial na pesquisa brasileira, os dados são ainda mais alarmantes. Apenas 15% dos docentes das universidades federais e 2,7% dos alunos de pós-graduação são negros. A Liga de Ciência Preta Brasileira (LCPB) foi fundada com o objetivo de ajudar a reverter essa situação, evitando que trabalhos produzidos por cientistas pretos e pardos caiam no esquecimento. Dessa forma, busca-se normalizar a presença de profissionais negros, tornando o meio científico mais diverso. “A Liga de Ciência Preta Brasileira é uma liga que busca dar representatividade, dar voz e visibilidade para os cientistas negros do país, mas não só do país, todos os cientistas negros que já fizeram história”, complementa Vivane Alves sobre o objetivo do projeto. 

“A UFMG, na figura da reitora, dos pró-reitores e dos docentes, desde a implementação das cotas pela lei federal, tem realizado inúmeras ações para inclusão dos estudantes, não só em termos raciais, mas de membros da comunidade LGBTQIA+, PCD e de outros grupos, buscando atender as necessidades desses grupos por meio de apoio, eventos e outras iniciativas. Ainda não é ideal, mas vemos uma discussão constante nas unidades com relação à representatividade”, afirma a professora Viviane sobre o papel da Universidade nesse contexto. 

Por sua vez, o projeto Parent in Science desenvolve pesquisas que buscam elucidar os impactos da maternidade na carreira de cientistas no Brasil. Vencedor do Nature Research Awards for Inspiring Women in Science, prêmio da revista Nature, o Parent in Science tem contribuído para criação de grupos de trabalho locais, para implementação de políticas de apoio às mães, enfrentamento à desigualdade de gênero e raça na ciência brasileira. O projeto lança luz sobre uma questão, até então, ignorada no meio científico, mostrando possibilidades de conciliação entre maternidade e carreira na pesquisa. 

 

OLHAR PARA O FUTURO 

Para o futuro, além do incentivo para projetos atuais, as iniciativas de divulgação científica são muito importantes. Além de popularizar a ciência, tais projetos podem ter um importante papel de representatividade, incentivando a formação de cientistas diversos, de diferentes etnias, gêneros, sexualidade e perfis. Dessa forma, pode-se alterar o cenário atual. 

Sobre a comunicação científica e a diversidade nesse meio, a professora Viviane Alves reflete: “Nos últimos tempos, com todo esse negacionismo, tornou-se importantíssimo a gente empenhar esforços para a comunicação pública da ciência. Mostrar o que é feito em uma linguagem simples, acessível. Vivemos um tempo em que as críticas aos cientistas têm sido muito fortes, sugerindo que não temos um papel importante na sociedade, sendo que vivemos de ciência para tudo. É impossível viver sem ciência e a comunicação científica é um ambiente também que, além de proporcionar informações seguras para a população, tem que ser feita de forma inclusiva. Mas, ainda nos questionamos, ao olhar para a divulgação científica, quantos comunicadores de ciência negros as pessoas conhecem?”. 

Na Fundep, as iniciativas ligadas à diversidade vão se fortalecer cada vez mais. “Quando o projeto Mulheres na Ciência surgiu, houve total apoio da Fundação, que assina as peças, organiza e promove os encontros, justamente porque entendemos que o universo em que a Fundação se insere, tanto da UFMG, quanto das instituições apoiadas, é formado por pessoas diversas. Para o próximo ano, vamos manter a agenda de encontros. Vimos que é uma comunidade que veio para ficar e pretendemos impactar cada vez mais mulheres”, conclui Júlia Fernandes sobre os próximos passos do Mulheres na Ciência.

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