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A parceria UFMG e Fundep na pesquisa: seis olhares

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Pesquisa na UFMG: sensores de líquidos quimioresistores
Sensores de líquidos quimioresistores, baseados em nanotubos de carbono têm potencial para apresentar baixo custo de produção, alta sensibilidade, baixo consumo de energia e a possibilidade de miniaturização. Inovação produzida no CTNano UFMG, apoiado pela Fundep. Crédito: Instagram CTNano

Pesquisadores e pesquisadoras que ocuparam a Pró-reitoria de Pesquisa nos últimos 20 anos analisam o lugar da Fundação para o desenvolvimento de ciência e tecnologia.

 

Anos 1970, “Milagre Econômico” brasileiro. Na agenda política, uma ambiciosa política de incentivo à ciência e à tecnologia; impulsionada pelo pensamento nacional-desenvolvimentista e regada a abundância de recursos derivados de elevadas taxas de crescimento econômico. A taxa média de crescimento do PIB de 1967 a 1973 foi de cerca de 10,2% e de quase 12,5% entre 1971 e 1973.

No campo do ensino superior, após a Reforma Universitária de 1968; centrada na criação de programas de pós-graduação e na adoção parcial do modelo organizacional norte-americano; consolida-se um arcabouço estatal de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico pela institucionalização da pesquisa nas universidades. Tal ação faz parte da comunidade acadêmica temer a ingerência do governo militar alçado ao Palácio do Planalto com o golpe de 1964.

Ao mesmo tempo, configura-se um sistema em que os recursos para a pesquisa são desvinculados da verba orçamentária das universidades, tornando-se necessário encontrar  soluções para administrar convênios ou quais outras formas  utilizadas para o repasse dos recursos: acordos, contratos, auxílios de qualquer natureza. Administrar tais recursos passa a ser impossível sem uma estrutura dedicada a essa complexidade.

 

Solução necessária

É neste cenário que a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se vê compelida a articular uma solução para enfrentar as amarras de natureza jurídico-administrativa que a impediam de realizar operações de aquisição de equipamentos e materiais para desenvolvimento das pesquisas com a agilidade necessária, dando nascimento à sua Fundação de Desenvolvimento à Pesquisa (Fundep).

A reportagem da Conecta Fundep ouviu seis pró-reitores e pró-reitoras de pesquisa que ocuparam o cargo na história recente da UFMG. Se as abordagens variam em relação ao entendimento de qual perspectiva deve orientar o desenvolvimento da pesquisa, todos são unânimes em apontar o papel estratégico desempenhado pela Fundação como meio para  inserção da UFMG na rede de desenvolvimento da ciência e tecnologia.

 

Desatando nós e amarras

A professora emérita da UFMG Dorila Piló Veloso, aposentada do Departamento de Química, esteve à frente da Pró-Reitoria de Pesquisa entre 1994 e 1998; durante a gestão do reitor Tomaz Aroldo da Mota Santos. Pioneira e uma das principais lideranças na área de química moderna, em especial no uso da técnica de ressonância nuclear, Dorila Veloso enxerga a Fundep como parte da UFMG. Ela afirma que não teria conseguido exercer a função de pró-reitora se não tivesse a fundação ao seu lado, todo o tempo.

Durante sua gestão, foram criadas estruturas fundamentais para o desenvolvimento da ciência na UFMG. “Nossas prioridades eram a criação da CTIT [Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica], do Cenapad [Centro Nacional de Processamento de Alto Desempenho de Minas Gerais], e do programa de bolsas para a iniciação científica (Pibic) trabalho que realizamos em conjunto com a Fapemig. Em todas essas frentes contamos com a atuação da Fundep”.

A CTIT se ocupa da proteção dos ativos de propriedade intelectual da Universidade, do mapeamento de competências e oportunidades. Ademais, a Coordenadoria é responsável pela construção de alianças estratégicas e acordos de transferência de tecnologia. O Pibic, oferecido nas modalidades Iniciação Científica e Iniciação Científica Ações Afirmativas, incentiva o pensamento científico, a criatividade e desperta novos talentos. O Cenapad/MG é um dos oito centros que compõem a rede de supercomputação instituída pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e coordenada pelo Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Sinapad). O Centro é hospedado na Divisão de Computação Científica do Laboratório de Computação Científica da UFMG.

“O supercomputador que conseguimos comprar naquela época, se não me engano, era o melhor da América Latina e estava entre os melhores do Hemisfério Sul. Hoje, não é nada perto do meu smarthphone”, diverte-se Dorila Veloso.

 

Apoio que se tornou essencial

Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG e atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), o professor Paulo Sérgio Lacerda Beirão, pró-reitor de Pesquisa entre os anos de 1998 e 2002, gestão do então reitor Francisco César Sá Barreto, recorda que no final dos anos 1990 a Fundep não tinha ainda “uma atuação tão pujante”, mas já dava sinais evidentes da fundação que iria se tornar.

“A Fundep tinha passado por um período difícil. Era uma época de escassez de recursos para o financiamento da pesquisa, similar, mas não tão dramático como o momento que enfrentamos atualmente. Mesmo assim, ela foi capaz de contribuir com a criação do IEAT [Instituto de Estudos Avançados da UFMG], usando um fundo de endowment de R$ 1 milhão. Sem o apoio da Fundep não teria sido possível criar a estrutura, essencial para os estudos transdisciplinares”, recorda Beirão.  O IEAT atua em diferentes áreas do conhecimento; humanidade, exatas e biológicas; e busca o “o chamado estado da arte do conhecimento, sem o qual não há pesquisa avançada nem grupos de excelência”.

 

Exemplo para o Brasil

Companheira de Beirão no Instituto de ciências Biológicas, Adelina Martha dos Reis, professora titular do Departamento de Fisiologia e Biofísica e pró-reitora de Pesquisa entre 2014 e 2016, os dois primeiros anos da gestão do reitor Jaime Arturo Ramirez, afirma que a Fundep é “um exemplo de fundação para todo o Brasil”.

A professora, que já ocupou o cargo de secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Minas Gerais, lamenta que os editais universais do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, não possam contar com a gestão das fundações. “O pesquisador tem que fazer tudo! A gente perde tempo, se estressa … E temos, na UFMG, a equipe da Fundep que sabe, como ninguém, fazer tudo isso e de forma brilhante”, lamenta. Para ela, o CNPq deveria seguir os passos da Fapemig, que indica a necessidade de uma fundação de apoio para a gestão dos projetos.

 

Sustentáculo para o crescimento

Segundo o professor titular do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária José Aurélio Garcia Bergmann, pró-reitor de Pesquisa entre 2002 e 2006, a partir dos anos 2000 a Fundep foi um dos sustentáculos para o salto acadêmico da Universidade sobretudo, tendo como uma das atuações mais estratégicas a participação na gestão de projetos estruturantes financiados com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

A Finep, empresa pública ligada ao Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), responde por recursos destinados ao fomento à ciência, tecnologia e inovação em empresas, universidades, institutos tecnológicos. Criada em 1967, passou a ser gestora, dois anos depois, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), criado com a finalidade de dar apoio financeiro aos programas e projetos prioritários de desenvolvimento científico e tecnológico.

A euforia dos primeiros anos do regime militar logo deu lugar à recessão econômica e hiperinflação e nos anos  80 e 90 foram de restrições orçamentárias. A partir de 1999, o FNDCT voltou a ganhar importância dentro do sistema brasileiro de inovação com o surgimento dos Fundos Setoriais de Inovação, política implementada com o objetivo de criar aportes constantes de recursos para o financiamento da inovação.

 

Apoio estruturante 

A Finep adotou a estratégias de fazer chamadas anuais com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Chamados de CT-Infra, esses projetos são voltados para a modernização e ampliação da infraestrutura e dos serviços de apoio à pesquisa desenvolvida em instituições públicas de ensino superior e de pesquisas brasileiras, por meio de criação e reforma de laboratórios e compra de equipamentos, por exemplo, entre outras ações. “São esses projetos que permitem as grandes mudanças de patamar das universidades”, explica José Aurélio Bergmann.

Durante o reitorado de Ana Lúcia Gazzola, a UFMG apresentou anualmente projetos estruturantes ao  FNDCT. Nessas ocasiões, de acordo Bergmann, o pró-reitor de Pesquisa mudava de endereço. “Eu praticamente morava na Fundep. E não somente eu, mas o Jaime e o Ronaldo [Jaime Arturo Ramírez, atual presidente da Fundep e pró-reitor de Pós-Graduação á época, e Ronaldo Tadeu Pena, na ocasião pró-reitor de Planejamento e Gestão]”, recorda.

“Foi pelo CTInfra que nós estruturamos o Centro de Microscopia Eletrônica, uma iniciativa pioneira, que mudou a cultura da Universidade ao fortalecer a ideia de um espaço para todas as áreas de pesquisa. A Fundep entrou com recursos próprios para a viabilização”, lembra José Aurélio.  “Nós, os pesquisadores, pró-reitores e diretores de Unidade, levantávamos as demandas, mas quem dava corpo ao projeto a ser submetido ao CT-Infra eram os funcionários da Fundep”, afirma.

 

Centro de Microscopia criado na UFMG permitiu a descoberta do tupanvírus – maior vírus já identificado no planeta – cuja imagem foi considerada uma das melhores fotos científicas de 2018, segundo a revista Nature.
Crédito: Centro de Microscopia da UFMG
Destaque para a Inovação 

Titular no Departamento de Física e pró-reitor de Pesquisa entre 2016 e 2018, segunda metade da gestão de Jaime Ramirez, o professor Ado Jorio de Vasconcelos sintetiza o papel da Fundep para a UFMG. “A fundação atua em muitas frentes, no apoio a pesquisadores; no suporte à Pró-Reitoria na gestão de projetos do FNDCT [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] geridos pela Finep; no lançamento de editais para recém-doutores. Mas ressalto que uma das mais relevantes contribuições é a participação da Fundep na consolidação do sistema de inovação”, destaca.  

Para Ado Jorio, que integra a lista de cientistas mais influentes do mundo, o papel da Fundep é estruturante. Ele destaca três grandes iniciativas: a gestão administrativa da CTIT da UFMG, Núcleo de Inovação da Universidade Federal de Minas Gerais; o financiamento de empreendimentos que estão no BH Tec [Parque Tecnológico de Belo Horizonte]; e a criação da Fundepar [gestora de fundos de investimento especializada no desenvolvimento de negócios inovadores de alto impacto].  

“O Brasil, com a sua reduzida história de inovação de alto grau tecnológico, carecia de uma estrutura como a Fundepar. Inovação de ponta é de alto risco e não dá para esperar do mercado a pré-disposição para assumir esse tipo de iniciativa”, destaca Jório, que trabalha com pesquisa e desenvolvimento de instrumentação científica em óptica para o estudo de nanoestruturas com aplicações em novos materiais e biomedicina. 

 

Relação de reciprocidade 

Professor titular do Departamento de Ciência da Computação, Mario Fernando Montenegro Campos, atual pró-reitor de Pesquisa, afirma que a Fundep é fundamental para a UFMG e necessária para o sucesso das ações da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRPq). “Na minha avaliação, há uma permanente disposição da fundação em contribuir e atender, sempre, as necessidades de operação e de funcionamento da PRPq. Ainda que tenhamos identidades distintas, que nos diferenciam – o que é indispensável -, temos trabalhado [a Pró-Reitoria e a Fundep] conjuntamente. Isso é possível porque a Fundep atua de forma generosa”, afirma.

 

Iniciativas inovadoras

Mario Campos, que, como pesquisador, atua nas áreas de Visão Computacional e Robótica, enumera dois exemplos recentes para esclarecer como é que se dá essa atuação generosa”. O primeiro é o OutLab, programa de aceleração de negócios exclusivo para laboratórios de pesquisa, iniciativa pioneira no Brasil. A fundação fez a proposição e nós, da PRPq, fomos convidados para fazer parte do projeto. É ou não é uma atuação que está preocupada com o fortalecimento institucional da Universidade?”, indaga. A rodada inicial de negócios do OutLab, em 2019, selecionou 25 unidades laboratoriais, fez 315 prospecções, apresentou 95 propostas e concluiu 50 acordos, movimentando cerca de R$ 1 milhão em contratos firmados com empresas dos segmentos de farmácia, indústria, mineração, educação e saúde.

A segunda iniciativa é a CooLabs, Cooperativa de Laboratórios da UFMG. Neste caso, a ideia foi nossa, e surgiu no momento inicial da pandemia de covid-19. Os laboratórios das áreas biológicas e de saúde da UFMG são reconhecidos pela excelência de suas pesquisas e com a interrupção inicial das atividades, passamos a usar essa capacidade instalada para disponibilizar serviços de testagem para o Estado e para a sociedade. Mas não queríamos que fosse uma ação individualizada. Procuramos a Fundep e conseguimos implementar o projeto no formato de uma cooperativa, algo novo na Universidade. Sem a fundação, teríamos muitas dificuldades para tirar a ideia do papel”, comenta.

 

Legenda: Pesquisadores do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais (Cecor) contam com apoio Fundep para importar equipamentos e insumos especializados para a pesquisa.
Crédito: Cecor UFMG.

 

Por Marcílio Lana

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