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Vacina Covid-19 – o Brasil e o mundo na corrida pela solução

Postado em Ciência, Tecnologia e Inovação
CT-Vacinas_Pedro-Vilela_Getty-Images

O enfrentamento ao novo coronavírus (Covid-19) é um desafio global e está exigindo de todos o compromisso com a saúde pública. Diante do avanço exponencial da curva de contágio no mundo, e o comportamento já observado do agente, torna-se uma prioridade estratégica acelerar e otimizar o diagnóstico da infecção para contribuir com o controle da pandemia. Também se faz fundamental o desenvolvimento da vacina, que poderá controlar de forma mais efetiva o índice de letalidade da doença e sua contaminação.

O planeta assiste a uma corrida em busca de uma vacina contra o Covid-19. Existem, atualmente, mais de 30 ações de países como China, EUA e Alemanha, que tentam encontrar uma forma de prevenção contra a Covid-19. O Brasil não fica de fora desta busca e já conta com iniciativas em ritmo acelerado, não como competição, visto que quanto mais projetos desenvolvidos, maiores são as chances para essa superação em escala mundial.

Os Ministérios da Saúde (MS) e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) anunciaram recursos na ordem de R$ 100 milhões em investimentos para chamadas de projetos científicos e encomendas tecnológicas no combate ao novo coronavírus. Entre as iniciativas, na frente de pesquisas, está a Rede Vírus MCTIC. Composta por cientistas e especialistas de Institutos de Ciência e Tecnologia, universidades, agências e laboratórios, o grupo atua no desenvolvimento de diagnósticos, tratamentos, vacinas e produção de conhecimento sobre o vírus e está interligado a uma rede internacional de 15 países.

Os cientistas do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estão entre os membros desse comitê. “Estamos envolvidos nessa estratégia do MCTIC unindo todas as nossas forças para o enfrentamento, na equipe do Secretário de Políticas para Formação e Ações Estratégicas, Marcelo Morales; e do coordenador-Geral de Saúde e Biotecnologia, Thiago Mello. Coordeno o projeto em diagnóstico, que agrega pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Instituto Butantan, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre outras instituições”, conta a cientista Ana Paula Fernandes, representante do CT Vacinas na Rede Vírus. Além da frente do avanço de diagnóstico, o CT Vacinas está trabalhando também na produção de vacinas contra o Covid-19.

Proposta para a vacina brasileira

Especialmente para o desenvolvimento da vacina, os pesquisadores trabalham em parceria conectando o CT Vacinas com o Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e também com a Fiocruz, Instituto Butantã e USP.

Os cientistas do CT-Vacinas Ricardo Gazzinelli (Fiocruz/UFMG) e Alexandre Machado (Fiocruz) acreditam em uma vacina bivalente contra o coronavirus e pela influenza. A Influenza (H1N1) já existente e o eCov2 (Covid-19) são vírus que afetam o mesmo sítio com acesso pelas mucosas das vias aéreas. “A Influenza e o eCov2 são infecções parecidas, têm o mesmo local de ação e parecem induzir resposta imune com propriedades semelhantes. Estamos desenvolvendo uma vacina aerosol, pelas vias aéreas, de fácil aplicação e imunização”, afirma Gazzinelli.

O desenvolvimento de uma vacina requer testes em animais e humanos e as etapas são fundamentais para validação da sua efetividade. Os cientistas compartilham as etapas necessárias e cronograma proposto para o desenvolvimento da vacina ambivalente Influenza e e-Cov2:

6 meses – vírus influenza recombinante expressando proteína spike do CoV2 e hemaglutinina do influenza sanzonal;
6 meses – imunidade, segurança e testes em animais;
3 meses – escalonamento;
3 meses – pré-clínico e lote piloto em humanos;
6 meses – teste clínico em humanos.

Normalmente, a criação de uma vacina pode levar mais anos e até mesmo uma década. Mas os incentivos governamentais e novas tecnologias de desenvolvimento têm sido capazes de abreviar o tempo exigido em algumas etapas do processo.

Por meio destes testes, serão verificadas a segurança de se aplicar o produto, que pode causar reações adversas, e a sua capacidade de proteger contra o vírus. “Pretendemos dar a maior agilidade possível, mas uma descoberta de imunização não pode ser apressada, ao ponto de colocar em risco a população”, diz Gazzinelli.

De acordo com o cientista, não há vacina para o Covid-19 e o Brasil está na mesma corrida com o mundo, não está atrás dos demais países, e, independente disso, deve seguir com sua própria solução. “Uma vez que a vacina é apresentada por um país, virão outras questões previsíveis: a prioridade de imunização e a produção em escala suficiente para a demanda mundial”, enfatiza.

Ricardo Gazzinelli é referência internacional em estudos sobre imunologia e doenças tropicais e tem contribuído para a descoberta de vacinas contra essas doenças negligenciadas, como a leishmaniose, a doença de Chagas e a malária. O Brasil tem uma posição de liderança em pesquisas nessas doenças, que afetam 1,6 bilhão de pessoas e o número pode chegar a 500 mil por ano, em mais de 150 países, sobretudo as mais pobres e desfavorecidas em regiões tropicais e subtropicais do planeta, principalmente na África, na Ásia, na América Latina e no Caribe.

Priorização e investimentos

“Precisamos desenvolver o nosso próprio diagnóstico. Uma vez desenvolvida a vacina em outro país, certamente o Brasil não estará na prioridade. Não podemos esperar e depender de decisões que envolvem políticas de outros países. Temos conhecimento e profissionais capacitados para esta missão. Investimentos nos possibilitam oportunidades de mais avanços”, acredita Gazzinelli.

Para que o cronograma seja cumprido, nesta celeridade, o volume de investimentos é fundamental. Entre as ações do governo, na última sexta-feira (20/03), o MCTIC e o MS anunciaram a liberação de recursos para esses desenvolvimentos. São R$ 50 milhões, por meio de chamada pública do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que contemplará projetos nas áreas de diagnósticos, vacinas, testes clínicos com pacientes, patogênese do vírus e outros temas relacionados ao combate ao COVID-19. Também serão mais R$ 50 milhões, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), para encomendas tecnológicas: sequenciamento do código genético do vírus, dois protocolos de testes clínicos com paciente utilizando medicamentos para combater o COVID-19, um estudo utilizando Inteligência Artificial para seleção de moléculas que possam inibir a replicação viral, pesquisa em inovação para testes diagnósticos, desenvolvimento de vacinas e projeto na área social.

Apoio à linha de diagnósticos

Frente ao alto volume, à crescente demanda e à necessidade da celeridade de resposta, pesquisadores da UFMG estão dialogando sobre medidas emergenciais para contribuir com o atendimento à sociedade, além da contenção da propagação do vírus, e se mobilizando para oferecer apoio na realização dos testes de diagnóstico.

Segundo estudo publicado na revista ‘Science’, a demora inicial em diagnósticos foi um fator que facilitou o desencadeamento da disseminação geográfica do vírus na China. Apenas 14% dos pacientes infectados foram identificados entre 10 e 23/01. Com sintomas leves ou assintomáticos, essas pessoas circularam normalmente e viajaram pelo país e, com a exposição, foram a fonte de contaminação de 79% dos casos confirmados, segundo estimativa publicada por cientistas.

Também integrante do CT Vacinas, o virologista Flávio Fonseca conta sobre a comissão criada na UFMG para oferecer auxílio na identificação de casos suspeitos da infecção pelo coronavírus. “Nosso objetivo é, devido à urgência do contexto, oferecer suporte científico para contribuir com a ampliação da eficácia dos exames”, conta o prof. Flávio Fonseca.

Começou no dia 1º de abril o processo de habilitação pela Fundação Ezequiel Dias (Funed) dos laboratórios de pesquisa da UFMG que ajudarão a diagnosticar a Covid-19 em Minas Gerais. Após ajustes nos laboratórios, a UFMG poderá fazer 300 testes de diagnósticos por dia, segundo a professora Santuza Teixeira, do CT Vacinas, que coordena a frente de diagnósticos e difusão da tecnologia para prestação de serviço. Esse suporte, alinhado à Funed (onde os exames de MG são realizados), amplia a celeridade das respostas e potencializa a frente de testes.