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Sem mesa de bar, como popularizar a ciência?

Postado em Eventos C,T&I
Uma das conversas do Pint of Science 2020, versão online, reúne pesquisadores para debater sobre a história das vacinas e do movimento anti-vacina no Brasil e no mundo

Uma mesa de bar, um copo de cerveja e… um papo sobre edição genética de DNA, desenvolvimento de vacinas ou gravitação quântica. Essa combinação pode até surpreender, mas já é sucesso em um dos maiores eventos de divulgação científica do planeta: o Pint of Science. Com a missão de levar a ciência onde as pessoas estão, há 8 anos o evento convida pesquisadores, palestrantes e a população de dezenas de países a dialogar, trocar experiências e conhecimento sobre temas científicos em bares, restaurantes e cafeterias.

A proposta é popularizar o conhecimento que faz parte da vida de todos, mas que ainda pode ser incompreensível para quem não atua no segmento. Segundo dados do State of Science Index Survey 2019, uma pesquisa do Instituto 3M realizada com 14 mil pessoas em 14 países desenvolvidos e emergentes, 68% da população afirma que sabe apenas um pouco sobre ciência. Apesar de se sentirem distantes do universo científico, 72% disseram que têm curiosidade sobre o tema e 88% acreditam que os cientistas deveriam compartilhar suas descobertas em uma linguagem mais acessível.

E quer linguagem mais acessível do que aquela compartilhada nas conversas de bar? Mas, o evento que coloca o cientista no papel daquele amigo boêmio que tem uma novidade para contar se deparou, neste ano, com o desafio que assola toda a humanidade: a imposição do distanciamento social e o fechamento de espaços que possibilitam aglomerações. No momento que a atenção pública se volta para as orientações, estudos e avanços científicos que estão contendo a propagação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e buscam soluções para a doença chamada Covid-19, as conversas sobre ciência perderam os espaços presenciais de efervescência de ideias e interações.

O cenário, no entando, não impossibilitou que a divulgação científica prosseguisse com a sua missão. Com a migração para o ambiente virtual, não apenas o Pint of Science, mas diversas iniciativas ligadas à ciência incorporaram o digital como única alternativa para a continuidade de debates tão urgentes. E, se em uma perspectiva, houve a perda de elementos importantes para a aproximação do universo científico – como brindar com aquele cientista da sua cidade que é referência internacional –, a conectividade de um espaço sem fronteiras ampliou, e muito, as possibilidades dessas interações.

Todavia, a ocupação do ambiente digital pela ciência no contexto da pandemia traz uma bandeira de luta. Isso porque, o fazer científico ainda desperta um ar de desconfiança. Uma pesquisa realizada pela organização americana Pew Research Center em 20 países, logo antes da Covid-19 tomar proporção de pandemia, traz dados ambivalentes quanto à percepção das pessoas sobre ciência. Em geral, 40% da população afirma ter alguma confiança nos cientistas e 42% afirma que as realizações científicas do seu país estão acima da média ou são as melhores do mundo – dado que varia de 8% no Brasil a 61% nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Apesar disso, a ocupação da ciência no espaço digital é uma luta de muitos. Na edição realizada em setembro, o Pint of Science Brasil, por exemplo, alcançou mais de 100 mil pessoas e obteve cerca de 10 mil espectadores em palestras online em 73 cidades do país. Segundo o diretor da edição brasileira, Luiz Gustavo de Almeida, a ampliação proporcionada pelo digital possibilitou que pessoas de cidades que nunca receberam o evento pudessem conhecê-lo e acompanhá-lo, além de permitir a troca de conhecimento científico entre as várias regiões brasileiras. “Foi possível ver o sotaque da nossa ciência fora do eixo Sudeste, como o Piauí e o Rio Grande do Sul. A ciência de cada região é muito diferente e isso é a cara do Brasil”, ressalta o diretor. Isabela da Silva Freitas, estudante de Arquitetura da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), reside na cidade de Capitão Andrade, em Minas Gerais, e se conectou com o evento pela primeira vez: “como aluna que mora em uma cidade pequena, esses eventos não chegam ao nosso conhecimento. Acho que o modo online funciona super bem, então seria bom integrar o online e o presencial para alcançar mais pessoas”.

“Online e presencial” – Isabela dá pistas valiosas para a pergunta “como popularizar a ciência?”. Primeiro, porque parte da percepção de quem compõe esse ‘popular’ e mostra como é importante entender as pessoas, o porquê consomem ou não ciência, como percebem o fazer científico e quais oportunidades elas levantam para essa aproximação. Depois, porque para estar ao alcance das pessoas, quanto mais ambientes e formatos, maior a possibilidade de criar sentidos e conexões, aproximando a produção de um conhecimento que tem a sociedade em seu início, meio e fim. Seja na mesa de um bar ou em um evento online assistido de Capitão Andrade, assunto não falta nas conversas sobre ciência.

A Fundep é parceira do Pint of Science Belo Horizonte há três edições e acredita na importância da popularização da ciência. Participe da nossa pesquisa “Hábitos de consumo sobre ciência” e apoie o fortalecimento da divulgação científica.