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Prêmio Nobel 2018 – Economia: inovação e sustentabilidade

Postado em Ciência, Tecnologia e Inovação

Uma das mais prestigiadas premiações do mundo, o Prêmio Nobel homenageia, anualmente, pessoas que realizaram pesquisas, descobertas ou contribuições de grande valor para a humanidade.

A Academia Real das Ciências da Suécia concede a honraria nas áreas de Física; Química e Ciências Econômicas, em Memória de Alfred Nobel; a Assembleia do Nobel do Instituto Karolinska concede a premiação para Fisiologia ou Medicina; a Academia Sueca concede para Literatura; e o Prêmio Nobel da Paz é concedido pelo Comitê Norueguês do Nobel.

Conheça os vencedores de 2018 e suas pesquisas e contribuições.

Fontes: Revista Galileu, G1 e Época Negócios

Nobel da Paz 2018 – ativistas que lutam contra violência sexual como arma de guerra

A ex-escrava sexual do grupo extremista Estado Islâmico Nadia Murad e o médico ginecologista Denis Mukwege ganharam o Prêmio Nobel da Paz 2018 por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado. O anúncio dos vencedores foi feito no dia 5 de outubro de 2018, em Oslo, na Noruega.

Denis Mukwege e Nadia Murad (imagem: Nobel Assembly)

Denis Mukwege, de 63 anos, passou grande parte de sua vida adulta ajudando as vítimas de violência sexual na República Democrática do Congo, na África, e lutando por seus direitos. Ele e sua equipe trataram cerca de 30 mil vítimas desses ataques, desenvolvendo grande experiência no tratamento de lesões sexuais graves. Conhecido como “doutor milagre”, ele é um crítico feroz do abuso de mulheres durante guerras e descreveu o estupro como uma “arma de destruição em massa”. Financiado pela Unicef e outros doadores, Mukwege montou um hospital com 350 leitos, uma unidade de atendimento móvel e um sistema para oferecer microcrédito para as vítimas reconstruírem sua vida. “Posso ver nas faces de muitas mulheres como estão felizes de serem reconhecidas”, afirmou Mukwege, que estava em cirurgia quando soube que tinha ganhado o prêmio. “O princípio básico de Denis Mukwege é que ‘a justiça é da conta de todo mundo’. O Prêmio Nobel 2018 é o símbolo mais importante e unificador, tanto nacional como internacionalmente, da luta para acabar com a violência sexual na guerra e nos conflitos armados”, diz a organização.

Nadia Murad, de 25 anos, se tornou uma ativista dos direitos humanos da minoria yazidi após sobreviver a três meses de escravidão sexual imposta por integrantes do EI no Iraque. “Espero que ajude a levar justiça às mulheres que sofreram violência sexual”, afirmou Nadia após ser informada do prêmio. Após escapar dos terroristas, em 2014, ela liderou uma campanha para impedir o tráfico de pessoas e libertar o grupo étnico-religioso yazidis, que é composto por cerca de 400 mil pessoas. As crenças desse grupo misturam componentes de várias religiões antigas do Oriente Médio. A etnia é considerada “infiel” pelos extremistas do EI. Estima-se que 3 mil garotas e mulheres yazidis foram vítimas de estupro e outros abusos por parte dos extremistas no Iraque. A violência sexual foi sistemática e fazia parte de uma estratégia militar empregada pelos terroristas contra minorias religiosas. Em 2016, ela foi nomeada embaixadora da Boa Vontade da ONU para a Dignidade dos Sobreviventes do Tráfico Humano.

Nadia Murad, a iraquiana que foi sequestrada pelo EI e passou três meses sob o comando dos extremistas (Foto: Omar Macchiavelli)
Nobel de Economia – Integrando inovação e clima com crescimento econômico

William D. Nordhaus e Paul M. Romer foram os agraciados com o Nobel de Economia. Os dois americanos foram pioneiros ao adaptar a teoria econômica para dimensionar melhor as questões ambientais e o progresso tecnológico.

Ao conceder um prêmio que destacou o debate global dos riscos associados à mudança climática, a Academia Real Sueca de Ciências disse que o trabalho dos laureados ajudou o responder perguntas fundamentais sobre como promover o crescimento sustentável de longo prazo e enfatizar o bem-estar humano.

Nordhaus, professor da Universidade Yale e um dos acadêmicos mais respeitados em seu campo, foi premiado por seus estudos sobre os efeitos das mudanças climáticas na economia. Já Romer, docente da Universidade de Nova York e ex-economista-chefe do Banco Mundial, pesquisou os impactos dos estudos sobre inovação tecnológica na análise macroeconômica.

William D. Nordhaus e Paul M. Romer (imagem: Nobel Assembly)

 

Inovação – Sobre o prêmio concedido a Paul Romer, a Academia afirma que seus trabalhos “demonstram como o conhecimento pode impulsionar o crescimento econômico de longo prazo. Quando um crescimento econômico anual de alguns pontos porcentuais se acumulam em décadas, transforma a vida das pessoas”. As pesquisas macroeconômicas anteriores olhavam para a inovação tecnológica como o principal fator a levar ao crescimento, mas os modelos não consideravam como as decisões econômicas e condições do mercado determinam a criação de novas tecnologias. Romer mostrou como as forças econômicas governam a disposição das empresas para produzir novas ideias e inovações e estabeleceu os fundamentos de um novo modelo para o desenvolvimento, conhecido como teoria do crescimento endógeno. A teoria de Romer, publicada em 1990, explica como ideias são diferentes de outros ativos, e diz que para que as ideias surjam, é preciso ter condições específicas no mercado. Sua teoria se desdobrou em pesquisas sobre regulações e políticas para encorajar novas ideias e crescimento de longo prazo. A premiação pegou Romer, da Escola de Administração Stern da Universidade de Nova York, de surpresa. “Recebi duas ligações hoje de manhã, e não respondi nenhuma porque achei que eram telemarketing, então não estava esperando o prêmio”, disse ele, comemorando a chance de expandir sua teoria.

Sustentabilidade – Já Nordhaus, da Universidade Yale, foi o primeiro a criar um modelo quantitativo que descreveu a interação entre a economia e o clima. “Suas descobertas ampliaram significativamente o âmbito da análise econômica por meio da construção de modelos que explicam como a economia de mercado interage com a natureza e o conhecimento”, disse a Academia, em um comunicado. O pesquisador começou a trabalhar nesse tema na década de 1970, momento em que crescia a preocupação dos cientistas sobre os combustíveis fósseis. O modelo criado por Nordhaus integra teorias e resultados empíricos com Física, Química e Economia. Atualmente, é amplamente utilizado para simular como a economia e o clima evoluem juntos — para avaliar as consequências de uma mudança na política climática, como impostos sobre emissões de carbono. Horas antes do anúncio do prêmio, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática das Nações Unidas (IPCC) alertou para o risco de ondas de calor mais frequentes, enchentes e secas em algumas regiões, além da perda de espécies, sem uma mudança radical na maneira como as sociedades operam.

Nobel de Medicina 2018 – terapia contra o câncer

Os imunologistas James P Allison, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, do Japão, ganharam o Prêmio Nobel de Medicina 2018 pelos trabalhos que desenvolveram para o tratamento de câncer. Eles descobriram que o sistema imunológico do corpo pode ser aproveitado para atacar as células cancerígenas. Os dois vão dividir o valor de 9 milhões de coroas suecas, o que corresponde a cerca de R$ 4 milhões. O anúncio foi realizado no dia 1º de outubro de 2018 pela assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, na Suécia.

Nobel Medicina – James P Allison e Tasuku Honjo (imagem: Nobel Assembly)

 

De acordo com o estudo, o sistema imunológico do ser humano procura e destrói células mutadas, mas as células cancerígenas encontram maneiras de se esconder dos ataques, permitindo que elas prosperem e cresçam.

James P Allison, professor e presidente de imunologia no Centro de Câncer MD Anderson da Universidade do Texas, estudou a proteína CTLA-4. Ela é conhecida por “frear” o sistema imunológico. Dessa maneira, ele percebeu que havia como liberá-la para atacar tumores.

“Estou honrado por receber este prestigioso reconhecimento. Uma motivação para os cientistas é empurrar as fronteiras do conhecimento”, ele disse. “Eu não comecei a estudar o câncer, mas a entender a biologia das células T, células incríveis que viajam pelo nosso corpo e trabalham para nos proteger.”

Tasuku Honjo, professor de imunologia da Universidade de Kyoto, descobriu a proteína PD-1, que também funciona como um freio para os tumores.

Os estudos dos imunologistas levaram na criação de medicamentos que “desligam” a fuga pelas células do câncer, permitindo que o sistema imunológico consiga combatê-las. Os tratamentos possuem efeitos colaterais, mas apresentaram resultados eficazes até em casos de câncer em estágio avançado. 

The Nobel Committee for Physiology or Medicine. (Illustrator: Mattias Karlén)

 

Nobel de Física 2018 – inovações no estudo de lasers

Donna Strickland, Arthur Ashkin e Gérard Mourou marcaram seu nome na história no dia 2 de outubro de 2018. Eles receberam o Prêmio Nobel de Física, maior honraria para pesquisadores dessa área do conhecimento, e ganharão o prêmio de 9 milhões de coroas suecas (o equivalente a R$ 4 milhões). Com sede em Estocolmo, capital da Suécia, a solenidade organizada pela Academia Real das Ciências da Suécia reconheceu o trabalho dos cientistas, que realizaram inovações no estudo de lasers.

Nobel Física – Arthur Ahskin, Gérard Mourou e Donna Strickland (imagem: Nobel Assembly)

O norte-americano Arthur Ashkin é responsável por uma invenção conhecida como “pinça óptica”, que aplica feixes de luz para mover diferentes objetos e pode ser aplicado em sistemas biológicos. Essas pinças podem, por exemplo, “manipular” estruturas moleculares minúsculas (como vírus e bactérias) sem realizar danos ao material. De acordo com os organizadores do Prêmio Nobel, isso faz com que a “ficção científica se torne realidade”: será possível cortar, puxar e empurrar fragmentos biológicos utilizando apenas a luz.

Já a canadese Donna Strickland e o francês Gérard Mourou realizaram estudos que inovaram o método de gerar pulsos de laser de alta intensidade, que podem ser aplicados na área de produção industrial e na Medicina. A técnica consiste em potencializar a aplicação dos feixes de laser para que seja possível cortar e fazer furos em diferentes materiais com precisão. É possível, por exemplo, aplicar esse tipo de laser em matéria orgânica de maneira segura: a utilização da tecnologia já é realizada, por exemplo, em cirurgias no olho humano. Essa é a terceira vez na história que uma mulher recebe o Prêmio Nobel de Física. Junto de Mourou, ela dividirá o prêmio de R$ 2 milhões. Já Ashkin receberá a outra metade da premiação.

© Johan Jarnestad / The Royal Academy of Sciences
Prêmio Nobel de Química – evolução de proteínas

A norte-americana Frances H. Arnold, seu compatriota George P. Smith e o britânico Gregory P. Winter entraram definitivamente para a história da ciência ao serem anunciados como vencedores do Prêmio Nobel de Química 2018. Os cientistas foram laureados por realizar um trabalho inovador no estudo das proteínas e conseguir desenvolver evoluções genéticas dessas macromoléculas em laboratório. O anúncio foi realizado em Estocolmo, capital da Suécia, em solenidade organizada pela Academia Real das Ciências da Suécia.

Nobel Química – Frances H. Arnold, George P. Smith e Sir Gregory P. Winter

 

Frances H. Arnold receberá metade do prêmio, equivalente a R$ 2 milhões, por ser a primeira pesquisadora que conseguiu realizar uma técnica de evolução artificial de enzimas — proteínas responsáveis por acelerar as reações químicas. Cientista do Instituto de Tecnologia da Califórnia, ela realiza esse trabalho desde 1993 e estuda como o desenvolvimento das enzimas pode ser aplicado, por exemplo, na fabricação de substâncias químicas menos poluentes. Arnold é a quinta mulher a vencer o Prêmio Nobel de Química na história.

George Smith, da Universidade do Missouri, e Gregory Winter, pesquisador do Laboratório de Biologia Molecular, dividirão a outra metade do prêmio. Os cientistas foram reconhecidos pelo trabalho de clonar peptídeos, nome dado às moléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos (estruturas que formam as proteínas). O trabalho possibilitou inovações no estudo das Ciências Biológicas, com a criação artificial de anticorpos capazes de combater enfermidades que afetam o sistema imunológico ou que são responsáveis por alguns tipos de câncer.

© Johan Jarnestad / The Royal Academy of Sciences

 

Fonte: Revista Galileu

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