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Cientista mineiro na Nasa e suas missões em Marte

Postado em Ciência, Tecnologia e Inovação
Curiosity se aproximando de Marte – concepção artística (NASA)

Quem é curioso, provavelmente, já observou aquele ponto avermelhado do céu e refletiu: “como será Marte? Existe vida por ali?”. Esse planeta tem apaixonado a humanidade há cerca de 25 séculos; e a ciência, a tecnologia e a inovação estão, cada vez mais, nos possibilitando explorar e ampliar saberes sobre nosso vizinho no Sistema Solar. Um dos grandes contribuintes é o cientista formado na UFMG Ivair Gontijo, que integra a equipe da Nasa para missões de reconhecimento em Marte.

“Uma das perguntas que mais escuto é: ‘como você chegou na NASA?’ E eu respondo que para parar na Nasa, você tem que começar em algum lugar”, conta. Criado na cidade mineira de Moema, às margens do Rio São Francisco, Ivair deixou seu trabalho como técnico agrícola em uma fazenda para a graduação em Física na UFMG, onde também fez o mestrado. O doutorado e pós-doutorado foram realizados na Escócia e EUA, quando ele chegou à agência espacial mais importante do mundo, a NASA, na Califórnia. “Não é fácil, mas também não é impossível alcançar um sonho, desde que estejamos dispostos a estudar e trabalhar muito, ter foco e paciência, pois podemos ouvir ‘não’ muitas vezes”. Para contar sua singular e inspiradora história, seus desafios e conquistas nesta caminhada rumo ao planeta vermelho, Ivair lançou o livro “A caminho de Marte – A incrível jornada de um cientista brasileiro até a NASA”. “Meus intuito com o livro é mostrar, também, que a ciência e tecnologia podem ser tão emocionantes quanto gol em final de Copa do Mundo.”

Aventuras em Marte

No Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, Ivair é o físico responsável pela construção do coração do radar e dos transmissores do robô Curiosity, que chegou a Marte em 6 de agosto de 2012, tornando-se o maior e mais sofisticado veículo espacial a ser enviado com sucesso a outro planeta. O Curiosity foi lançado para explorar o planeta – do lançamento na Terra à chegada em Marte foram percorridos 560 milhões de quilômetros durante oito meses e meio. A tarefa era dificultada pelo tamanho do veículo. Semelhante a um carro compacto, o Curiosity pesaria 900 quilos na Terra e possui um mastro de dois metros de altura. Segundo o cientista, o trabalho em uma missão dessas dimensões é exigente e tenso: nos momentos críticos, como lançamento e pouso, basta uma falha entre milhares possíveis para se perderem anos de trabalho e bilhões de dólares. “Mas ocorreu tudo melhor do que a equipe esperava.”

De acordo com o cientista, a missão do Curiosity já terminou oficialmente, mas o veículo continua fazendo pesquisas na superfície marciana, onde percorreu pouco mais de 18 quilômetros. “Já encontramos o leito seco de um rio, o fundo de um lago, rochas sedimentares e locais onde havia água com pH neutro, que uma pessoa poderia beber”, disse em palestra realizada na UFMG. Os operadores da Nasa recebem dados do Curiosity diariamente. Após a recepção, os dados científicos são discutidos, as fotos são analisadas e os engenheiros, técnicos e cientistas decidem o que fazer no dia seguinte.

Depois da primeira missão bem-sucedida, está sendo preparada uma segunda incursão. O físico trabalha, atualmente, no projeto do próximo veículo que será enviado ao planeta vermelho em dois anos. “A missão Mars2020 usará o mesmo processo para levar para Marte um veículo, mas será um coletor de amostras, que deverão ser trazidas para estudarmos aqui na Terra em uma outra oportunidade. Este veículo terá um novo conjunto de instrumentos e seu local de pouso ainda está sendo escolhido. O instrumento SuperCam, parte do veículo Mars2020, levará para Marte quatro técnicas de espectroscopia ótica, além de um microfone e uma câmera a cores”, explica. As amostras coletadas pelo veículo da Mars 2020 serão colocadas roboticamente em tubos, que serão selados hermeticamente e deixados na superfície do planeta. “As amostras vão ficar girando no foguete em torno de Marte. Uma terceira missão – mais simples – sairá da Terra, encontrará as amostras na órbita de Marte e trará tudo de volta. Isso é necessário porque temos na Terra laboratórios muito sofisticados para analisar as amostras.”

Auto-retrato de Curiosity da NASA mostra o robô em um local de amostra chamado “Duluth”. Imagem de 20 de junho de 2018. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS

 

Por quê explorar o Universo?

Segundo Ivan, a maioria das missões da NASA são satélites orbitadores na Terra, para análises das mudanças climáticas, umidade de solo, variação de temperaturas entre diversas outras pesquisas para estudar o planeta ao máximo, “para tomarmos conta da nossa casa”.

Um dos objetivos da exploração de Marte, segundo o livro do cientista, é, também, estudar a “habitabilidade”, ou seja, procurar evidências se o planeta vermelho tem ou já teve as condições mínimas para ser ou ter sido habitado por alguma forma de vida, mesmo microbiana. Isso já seria uma grande descoberta. Não é novidade que essas possibilidades de encontrar sinais e as popularmente comentadas vidas extra-terrestres tem o dom de intrigar.

“Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer”, diz Ivan, com uma citação do filósofo Aristóteles. Também fazendo referência, ele se lembra de Santos Dumont: “Naquela época (entre os séculos 19 e 20), era uma maluquice inventar um aparelho mais pesado que o ar para voar. As pessoas questionavam: ‘Para quê serve isso? Por quê gastar tempo e dinheiro com isso?’ Na minha opinião, não houve melhor investimento e a contribuição de Dumont para a aviação foi um dos principais benefícios trazidos para a sociedade.”

A Terra é o paraíso

“Vida em marte? Somente se ‘terrificarmos’ o planeta vermelho, o que não é algo impossível de se imaginar daqui a alguns séculos. Mas, por enquanto, o ambiente não é nada propício”, acredita Ivan, complementando: “o astrônomo e escritor americano Carl Sagan, já disse: ‘o pior e mais inóspito lugar da Terra ainda é um paraíso se comparado com qualquer lugar de Marte’”.

O físico afirma e reforça: “a Terra é um paraíso e não existe Plano B. Nós precisamos, sempre, de cuidar deste planeta, é a nossa morada, cada um deve fazer a sua parte”.

Ivair Gontijo e a cópia do Curiosity – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

 

Fontes: entrevista com Ivair Gontijo, em palestra realizada na UFMG, em julho de 2018; e materiais de divulgação.